quinta-feira, 25 de abril de 2013

Esposa de diplomata? Embaixatrizo?

Nossas aventuras pela África continuam! 
Recentemente completamos 1 ano em África. Foi um ano de muitas novidades, tantas descobertas, cores, paisagens, sabores!

Além da oportunidade de morar em Libreville ainda conseguimos conhecer outras cidades africanas: Joanesburgo, São Tomé, Cotonou, Luanda, rápidas passagens por Adis Abeba e Ponta Negra, e ainda a linda Cidade do Cabo! Cada uma dessas cidades deixou sua marca especial na minha memória e impressões daquelas que só se pode ter vendo com seus próprios olhos. 

Foto: Gabriela Oliveira (Cotonou, Bénin)
Ainda temos muitos planos de viagem e amigos para visitar na África. Vamos tentando assim conhecer um pouquinho mais esse continente tão incrivelmente cheio de riquezas naturais, humanas, gastronômicas, religiosas, étnicas, idiomáticas... 

Foto: Gabriela Oliveira (Cotonou, Bénin)
Quanto à experiência da vida diplomática, eu diria que agora me sinto um pouco mais situada e recompensada pelas difíceis decisões de deixar o Brasil, meu trabalho e tantas outras coisas e sonhos. Ganhei, no entanto, em um ano o que eu não ganharia em uma vida: a possibilidade de ver o mundo de perto. Essa oportunidade de acompanhar um diplomata pode parecer ser cheia de glamour e de facilidades, mas será só isso?

Se ser diplomata já é algo meio mítico, a "vida de esposa de diplomata" é quase que incompreensível. Responder a fatídica pergunta "o que você faz?" torna-se um desafio, uma prova de fogo, algo que, para mim, ainda não está fácil de lidar.

Esta semana eu conversei com um amigo cuja esposa é diplomata e falamos dessa dificuldade que as pessoas têm em compreender o papel daqueles que acompanham os diplomatas em suas missões mundo afora. Ele me disse que se sentia bem com sua situação, porém que vinha constatando que, para muitas pessoas, a situação de "acompanhante" gera certo estranhamento, principalmente quando o diplomata não é o homem.

São olhares, caras e bocas de reprovação ou ainda as famosas "cara de pena" ou "cara de legal", quando na verdade o interlocutor pensa que a pessoa não passa de uma aproveitadora, folgada, gigolô... São deprimentes os julgamentos a que as pessoas nessa situação de "expatriados acompanhantes" estão sujeitas! 

Muitos desses "questionadores" mal sabem que muitos sonhos tiveram que ser abdicados, postergados, substituídos... Tornar-se "o(a) acompanhante do(a) diplomata" nem sempre é uma opção, é um dilema a ser vencido, uma barreira a ser driblada. O que nem todo mundo sabe é que existem algumas dificuldades em trabalhar no exterior:

  1. O cônjuge de diplomata só possui autorização para trabalhar em países com os quais o Brasil possua acordos específicos que permitam o exercício de atividade profissional. 
  2. Existem países que simplesmente não empregam estrangeiros em determinadas atividades, reservadas à mão de obra local. 
  3. A profissão do cônjuge nem sempre pode ser facilmente exercida em outro país. 
  4. O casal estará em missão temporária e o empregador sabe disso, dificultando contratações. 
No caso de não conseguir exercer sua profissão no exterior, restam poucas opções aos cônjuges para evitar esse contínuo constrangimento: entrar para a carreira diplomática ou procurar atividades que possam ser exercidas em qualquer lugar (sorte daqueles que têm o dom da pintura, da música, da escrita...). Não raro, casais, do meio diplomático ou expatriados, decidem morar em países diferentes para que as carreiras não sejam prejudicadas; outros optam por estender ao máximo sua permanência no Brasil, para não sacrificar seu parceiro e nem o casamento. 

Outro dia fomos convidados para um almoço na casa de uma diplomata, que está em missão aqui em Libreville. Fomos recebidos na porta pelo marido dela, que fez as honras de anfitrião: nos conduziu à sala, nos serviu bebidas, nos mostrou a vista do apartamento, falava sobre músicas brasileiras e suas excursões pela cidade; enquanto ela, a diplomata, finalizava o almoço na cozinha e organizava as louças. Ele nos conduziu à mesa e sentou no lugar de destaque. Achei incrível a leveza com que o casal desempenhava os papéis, todo o movimento era natural, nada ensaiado, mostrando que eles conseguiram equilibrar perfeitamente a diplomacia, a família, o preconceito.

E, assim, cada casal vai tentando achar o caminho menos penoso e mais saudável para conciliar suas vidas profissionais e o desejo de permanecerem juntos. Não muito tempo atrás era raro ouvir notícias ou relatos das dificuldades enfrentadas pelos casais diplomáticos em função das escolhas profissionais de cada um, hoje, porém, já é possível encontrar algum material a este respeito. 

Abaixo compartilho algumas histórias de esposas, diplomatas, embaixatrizos:

  • Biografia de Clarice Lispector: "Aos 23 anos de idade (1943), Clarice se casa com Maury Gurgel Valente, futuro diplomata. Fruto dessa união, nascem dois filhos: Pedro e Paulo. Porém, a dificuldade é muito grande em acompanhar o diplomata e Clarice começa a se ver dividida entre a vida de esposa de diplomata e a deixar para trás família e amigos. Certa vez, chega a dizer : “Eu conhecia melhor um árabe com véu no rosto quando estava no Rio. Todo esse mês de viagem nada tenho feito, nem lido, nem nada. Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente”, reafirmando que sua vida se resumia à de apenas acompanhar o marido. Esse é o principal motivo de sua separação, em 1959 – Clarice decide, então morar no Rio de Janeiro, onde enfrenta um período de solidão e restrições financeiras." http://www.portuguesdobrasil.net/clarice_lispector.htm
  • Embaixatriz Yeda Assumpção, livro "Passaporte Diplomático": "Tinha uma vida muito intensa. Trabalho intenso, contatos variados, uma vida cultural rica, com muitos eventos. A Embaixada da França, por exemplo, é um núcleo fantástico, sempre cheia de artistas, pintores, conferencistas, sociólogos... Uma vida movimentada que nos deixava com a cabeça alerta. A volta foi difícil pelo término destas atividades. Este esvaziamento foi o que me levou a este livro. Teve seu lado positivo."http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=2737&id_entrevista=79
  • Relato de Sonia Bonzi, esposa de diplomata: 
    "Chegou a hora de arrancar as ainda frágeis raízes, que começavam a se firmar no cerrado, que eu aprendi a amar. Deixar o Brasil, despedir dos meus pais, abandonar o conhecido e me lançar em um outro desafio não foi fácil. Derramei litros de lágrimas. Em Viena, tomei mais consciência do que realmente me esperava nesta vida de acompanhante de diplomata, sem tempo para enraizar. Caminho de mudanças, instalações, adaptações e submissão às novidades." 
    http://redefurada.blogspot.fr/2012/10/como-e-vida-de-um-diplomata.html
  • Debate em Portugal: 
    “As mulheres dos diplomatas muitas vezes são um pouco esquecidas, porque estamos atrás da figura essencial, que é o diplomata,” disse ela. “Nós muitas vezes somos o fiel da balança. Tentamos equilibrar as coisas a nível harmonioso dentro de casa, e, fora de casa, tendo sempre no coração a representação do estado português.” Muitas vezes, isso significa também abdicar das suas próprias carreiras. 
    “Se não abdicamos da nossa carreira, deixamo-la em “stand-by.” Se não [a deixamos] em “stand-by,” abdicamos da nossa vida familiar.” 
    http://ojornal.com/pt-pt/portuguese-brazilian-news/2013/03/as-mulheres-e-a-diplomacia-foi-tema-de-palestra-na-cani/#axzz2RTmsAMN6
  • Matéria que, embora já esteja bem desatualizada, ainda serve para contextualizar: "Até a década de 70, entretanto, quando dois diplomatas se casavam, um deles abandonava a carreira. Aconteceu com Maria Sandra, ao tornar-se mulher do embaixador José Augusto Macedo Soares. Ela aposentou-se, virou embaixatriz e, deprimida, suicidou-se em 1975, em Bogotá. Dez anos depois, caía o impedimento de marido e mulher assumirem postos no exterior." http://epoca.globo.com/edic/19990628/soci2.htm

Dizem que o ser humano é o animal mais adaptável do planeta, não é? 


32 comentários:

  1. É, a solução é mesmo trabalhar em coisas que podem ser feitas em qualquer lugar do mundo E ter sorte. Por melhor escritor/pintor/músico que o cara seja, não adianta nada se ninguém investe nele.

    Enquanto isso, o jeito é assumir o personagem de gigolô mesmo, huauhahhahaa!

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    1. Bem sua cara escrever isso, Marcelo! hahaha

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    2. Acho a ideia bacana de se dedicar a algum tipo de artes/ música/ poesia/ fotografia/ artesanato.
      É o tipo de coisa que se faz em qualquer lugar do mundo... Cursos de arte podem ser feitos em várias cidades e fazer amigos pelo mundo que compartilham dos mesmos hobbies.
      Hoje sou funcionário publico.. mas deixei alguns sonhos para trás... Teria maior orgulho de dizer que sou Artista..
      Arte se faz em qualquer lugar = )

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  2. Hahuahauha essa história me soou familiar! XD

    Engraçado que essa semana mesmo eu estava pensando que o Marcelo devia fazer o concurso; acho que eu daria uma excelente esposa de diplomata! haha Acho que o jeito é se engajar em projetos pessoais - com recompensa financeira ou não - e abstrair as críticas, que muitas vezes vêm de pessoas da própria carreira, que passam pela mesmíssima situação!

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    1. Verdade, Luiza! O pior é a quantidade de "idéias inovadoras" que ouvimos para "ocupar" o tempo!

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  3. Celina,
    Foi um prazer visitar seu blog e saber das suas histórias e da sua vivência de acompanhante de diplomata. O passar dos anos me ensinou muito e não posso reclamar da vida intensa que vivi nos 5 continentes. Consegui ser eu mesma, o que considero uma vitória. Agora vou me despedindo desta vida cigana e espero poder criar raízes profundas em Copacabana e em Minas. Agradeço por ter publicado meu texto.
    Sônia Bonzi

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    1. Sônia,

      Só posso agradecer pelas suas palavras e ricas contribuições! Para mim, uma iniciante, é imprescindível ter exemplos como o seu. Parabéns pela sua dedicação e sabedoria nessa longa e linda trajetória. Desejo que esse novo momento seja de muita felicidade à você e sua família!

      Um grande abraço!
      Celina

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  4. Celine, parabéns pelo site que só agora tive a oportunidade de conhecer. Gostei muito. Sou debutante na "carreira" de esposa de diplomata. De todos comentários que ouvi o que mais me surpreendeu foi a de uma diplomata (mulher e mãe, como eu) que perguntou ao meu marido se eu " não achava chato ficar em casa sem fazer nada"! Com minha pouca experiência posso dizer que abstrair das críticas e viver as oportunidades que essa vida nos reserva é a melhor coisa a se fazer. O exemplo de vocês é enriquecedor e nos estimula a fazer sempre o melhor. Grande abraço.

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    1. Obrigada, Lu! Com o tempo vamos aprendendo a lidar com estes e tantos outros desafios que nos são colocados à prova... Obrigada por colaborar aqui no blog!
      Um grande abraço!

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  5. Celine, soube de seu blog pela amiga Lu Martins. Muito bom! Parabens!!! Tb debudante na carreira, mae de dois a espera do terceiro (rs), estamos chegando em Rabat após dois anos de peregrinacoes entre Damasco e Beirute. Sou fotografa documentarista e, mesmo com as dificuldades de ter vivido na Síria nesse período turbulento, tive a oportunidade de ter uma encomenda da ACNUR/Síria sobre a situacao dos refugiados lá q rendeu uma forte exposicao exibida em Genebra e outras capitais européias. Desde já, posso dizer q a carreira de meu marido vem me proporcionando a oportunidade de ajudar o mundo a ser um pouco melhor através do meu trabalho. Lí com muito entusiasmo o livro da Yeda Assuncao, q como eu, tb viveu na Síria e vivenciou uma 'revolucao', no caso dela, o da Argélia. Os sons dos minaretes de Damasco junto aos sons de helicopteros em vigília ainda me despertam de noite... Experiências únicas q alimentam minha alma e enriquecem meu espírito. :) Paula Dias Leite

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    1. Paula, excelente a sua colaboração aqui no blog! Acho que esses exemplos práticos são muito bem vindos e muito reconfortantes. Parabéns pelo seu trabalho, pela família. Desejo uma maravilhosa missão em Rabat, tenho um carinho muito especial pelo Marrocos e espero voltar lá até o final do ano.
      Um abraço!



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    2. Paula, parabéns! Incrível o seu depoimento e sua vida... AMEI a frase " a carreira de meu marido vem me proporcionando a oportunidade de ajudar o mundo a ser um pouco melhor através do meu trabalho", penso exactamente assim, como sempre digo, o pior que poderá acontecer (se eu nao conseguir um trabalho), será fazer trabalhos voluntários que irão colaborar com a população do pais de minha residência (temporária) e tirar muitaaaas fotos alem de me ajudar imenso, pois me tornarei um pessoa bem melhor e mais forte... Amei a ideia das exposições fotográficas, tenho este pensamento, vou começar a estudar fotografia... Muito obrigada, voce me inspirou muito. Respeito as mulher que optam em ficar "em casa" cuidando dos filhos, mas nao me vejo assim, quero ter filho sim, mas sinto uma enorme necessidade em fazer a diferença no lugar que eu estiver...

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  6. Parabéns pelo blog... Vivi essa condição de esposa de diplomata durante alguns anos, e sentia que mesmo entre os próprios diplomatas muitas vezes ainda imperava o sentimento de incompreensão desse necessário desprendimento dos cônjuges que muitas abdicam de suas escolhas pessoais em prol da família... E vendo aqueles que estão "de fora" dessa vida achando tudo lindo e glamouroso. Ainda bem que as experiências que vivemos compensam os desafios que enfrentamos! Boa sorte!

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  7. Gostei e gosto muito dos seus textos. Porém, me desculpe, mas vejo um certo machismo no seu relato sobre o casal em que a mulher é a diplomata. Entendo o seu ponto de que o marido, o acompanhante, não ficou em uma posição subalterna, mesmo não sendo ele o diplomata. Ao mesmo tempo, confesso, que me incomodou a noção implícita de que o homem, ainda que não sendo o diplomata, "ocupava o lugar de destaque", enquanto a mulher estava na cozinha. Me parece que esta observação e admiração guarda uma noção de que o homem estar na posição de destaque enquanto a mulher cozinha é estar em seu lugar natural, a posição do marido. O que me soa como algo muito estranho, tradicional e redutor da mulher, independente da profissão dela. Já fui recebida por amigos em que ele, o diplomata, estava na cozinha enquanto a mulher, não-diplomata, nos recebeu. Acho eu que nós mulheres, ainda para as acompanhantes de diplomatas (grupo no qual me inclui recentemente), devemos tentar apagar essas heranças de machismo ou patriarquismo do nosso próprio imaginário também.

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    1. Acho que houve um desencontro de ideias, pois eu jamais pretendi dar uma conotação machista neste exemplo. Em todos os posts eu prezo demais pela igualdade de gêneros e principalmente neste, onde a mensagem que eu queria deixar é que homem e mulher podem ter qualquer atividade, no trabalho ou em casa, sem ser diminuído, rejeitado e oprimido pela sociedade. Pense o exemplo citado trocando os papéis: o homem como o diplomata, cozinhando e sentando no lugar secundário da mesa e a esposa fazendo a apresentação da casa e sentando no lugar de destaque... foi nesse sentido que coloquei o exemplo, mas talvez tenha faltado mais clareza na escrita. Não sou adepta do pensamento de que "lugar de mulher é na cozinha", até porque meus maiores exemplos de vida e eu mesma, nunca seguiram nesta direção. Um grande abraço e muito obrigada pela participação sincera. Discussão de ideias é sempre importante!

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  8. Meu marido está se preparando para a carreira Diplomática, eu que sou advogada, fui consultada por ele e concordei.
    Vim pesquisar acerca da vida da mulher do diplomata, e encontrei seus ótimos texto, que refletiram a realidade que eu desconheço.
    Não achei machista seu texto, entendi que seu recado tem haver com o respeito a individualidade do outro, e não se transformar em mero acessório, em razão da dependência econômica. Deve ser complicado mas deve se ter certeza da relação, em várias situações já tive que sustentar a casa e foi sem stresse, acredito que da mesma forma ocorrerá.
    Só preocupo com o fato de ser aprovada em concurso público federal.

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    1. Perfeitas suas colocações! Caso você passe em um concurso federal, fique tranquila e siga adiante, com certos arranjos entre o casal será possível conciliar as vidas profissionais. Boa sorte na caminhada de vocês! Um abraço!

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    2. Cara Celina, passei uns dois meses em Libreville, em MT, com meu namorado diplomata e sei que não é muito fácil.. Admiro sua força e te desejo toda sorte!
      Quanto à 'Anônima", posso dizer que a minha experiência, agora como servidora federal, é reconfortante. Saber que posso tirar licença e voltar quando quiser pro meu emprego, sem prejuízos maiores, é muito bom..
      Sempre sempre vai ser difícil nossa condição, mas acho que cada um precisa achar seu caminho, de modo a minimizar as dificuldades..
      Abs!

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  9. Celina gostei muito do seu blog.....as vezes achava que era eu a unica mulher que se sentía uns quantos pasos atras do meu marido. Falta ainda comentar sobre a dificuldade do idioma, que assim tenhamos autorizacao pra trabalhar no país que vamos morar esse é um impedimento bastante grande, além de que nossa profissao nao seja válida nesse país. Vou continuar seguindo seu blog. Muito obrigada por compartir suas experiencias e seu ponto de vista.

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    1. Obrigada! Sempre bom receber colaborações aqui no blog!

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  10. Celina,
    Várias vezes eu passei por aqui, mas hoje queria deixar meu comentário, porque talvez tenha alguma mulher que possa se sentir identificada, e então não se sinta tão sozinha hoje.
    A vida da mulher do diplomata é muito sofrida. Entendo perfeitamente agora a Clarice Lispector; antes achava que ela estava se perdendo de uma vida maravilhosa. Mas basta ver as fotos dela em Washington para reconhecer nela os rostos das mulheres do Itamaraty: a melancolia, a falta de ser, mas a vontade de ser, os obstáculos para poder ser. As mulheres estão muito sozinhas, e o esforço é enorme. A realidade da solidão é verdadeira (estar sozinha em casa sem fazer nada, ou com os filhos, sem ajuda do pai), por mais que algumas possamos não querer ouvir sobre aquilo, ou o vejamos com horror para então dizer: eu vou ser diferente, eu tenho vida própria... mas não. Eu só vi mulheres tristes e cansadas, atrapadas na rede que tecem todos os dias ao se dizer, que bom, estou em Paris ou Buenos Aires ou Tóquio, e ensaiam um sorriso enorme nas suas caras alegres, e falam em coisas boas, tudo o que aprenderam, e que legal que é morar em diferentes países, e que orgulho meu marido, meus filhos, todos falamos tantas línguas e aprendemos e conhecemos melhor do que o resto este enorme mundo... Que privilégio! Que oportunidade! (palavras sagradas, palavras com as quais pensamos: magicamente virão para apagar as dores, dores reais, medos, incertezas, saudades, palavras que aprendemos da boca dos nossos maridos, dos outros diplomatas, com as quais calam nossas bocas como dizendo: não pode reclamar, sua vida é boa, é privilegiada... mas como reclamam TODAS! somos pessoas, e muitas vezes, há coisas das que não gostamos e sentimos que somos infelizes, mesmo olhando para o Mediterrâneo ou frente ao nosso computador última geração)... Eu achava a minha vida o paraíso, tantos países, tantas culturas... Mas o desapontamento é enorme: a hipocrisia desse mundo do mre corrói as boas intenções da gente, a disposição para fazer e aprender... Então aprendemos a ter que ser acompanhantes dos nossos maridos... é muito triste. A alegria, porque tem alegria, sim, é atingida com muita luta interior, e nessa luta, a mulher vai perdendo muito de si.
    Eu sei que tem outros relatos, eu partilhava esses outros relatos, bem-sucedidos, positivos, li vários livros, depoimentos, eu mesma fiz uma vida profissional com muito sucesso, trabalhei, obtive prêmios, eduquei dois filhos ... Mas uma mulher tem que pensar muito mas muito muito bem se vai casar com diplomata.
    Às que já casaram, desejo a melhor das sortes, sejam fortes e nunca deixem de cultivar seus nomes próprios, de lutar pelos seus direitos de serem felizes, porque é difícil que a felicidade venha de fora, a felicidade vem de dentro e não dos privilégios e das oportunidades. Não se iludam com o mundo hipócrita e bem vestido e bem viajado dos diplomatas, é tudo mentira. Que nenhum diplomata as convença do contrário, sejam sempre felizes... e se vocês não forem inteiramente felizes no seu matrimônio, acabem com ele, é provável que vocês queiram uma casa, filhos e um marido e um pai presentes, não um vestido para coquetéis, milhões de fotos de lugares exóticos e reuniões chatas com colegas.
    E se você for uma mulher que está pensando em casar com diplomata, pois pensa bem... liberdade não se explica...
    Beijo em todas vocês, nunca vou deixar de gostar de mulher de diplomata, porque às vezes ninguém gosta delas, às vezes nem elas próprias, e isso é muito injusto.
    Sejam felizes,
    Ana Luísa

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    1. Obrigada pelo registro, Ana Luísa! Passamos muito tempo "procurando" a felicidade, mal sabemos que ela está dentro de nós mesmas...uma eterna luta, como você mencionou.

      Um grande abraço!

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  11. Estava à procura de algo que eu pudesse ler e entender sobre a vida das mulheres de diplomatas.Com muita curiosidade, procurei em vários sites e acabei achando o seu blog.
    Na verdade, eu procurava algo relacionado à apoio, suporte, de como lidar com concurseiros.
    Ainda não sou casada, mas namoro um aspirante ao CACD há 2 anos. E já tenho uma ideia de como não é fácil. Tempo, ou melhor, falta de tempo para nós, money... Tenho entendido muito bem a necessidade dele de estudar, estudar e estudar.Ele sempre terá o meu apoio. Mas, tenho que reconhecer que a frustração de não passar tem pesado nele, e refletindo em mim.
    Às vezes, me perco sem saber como ajudá-lo. E isso é tão desconcertante... imagino que a maioria das mulheres de diplomatas hoje já passaram por isso. Apesar de ler aqui sobre algumas dificuldades, posso confirmar que estou pronta para encarar o desafio, assim que a tão sonhada aprovação do meu LOVE chegar.
    Gostei muito do seu blog e espero novas postagens ansiosa.
    Michele.

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    1. Michele, realmente os desafios familiares começam antes mesmo da entrada no Itamaraty. Comigo não foi diferente. O importante é nenhum dos dois perderem o foco, nem você de sua carreira e nem ele da busca pela realização desse sonho. A vida deve seguir seu rumo e naturalmente as coisas vão acontecendo. É sempre importante ter um "plano B" assim a luta fica mais suave. Se quiser, pode me mandar email: celinarn@gmail.com
      Um grande abraço e boa sorte!!!

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  12. Querida Celina,
    Gostei do teu blog, na verdade eu estava a procura de projectos desenvolvidos por esposas de Diplomatas, e encontrei o teu blog, eu tambem sou esposa de diplomata e estou no terceiro ano de missao, mas meu marido nao e do Itamaraty, sou de outra nacionalidade, e gracas a Deus consegui um emprego na embaixada como trabalhadora de recrutamento local, pois sou formada em relacoes internacionais, porem eu penso nas outras esposas o enfado que e estar em casa, e tive a brilhante ideia de criar uma associacao das ED, para realizarmos trabalhos sociais, e devemos sempre ter em mente que so nos tornamos inuteis e inprodutivas quando queremos, entao faremos visitas nos hospitais, recolheremos donativos das casas dos proprios diplomatas para dar em orfanatos, daremos cursos naquilo que mais nos inclinamos a interessados, ajudando os desfavorecidos, deixando assim o mundo melhor do que encontramos, e nao ha nesse mundo trabalho que retribua tanto o ser humano do que o trabalho humanitario, veja que estamos todos de passagem, e o que faz realmente a diferenca e o que a gente faz por alguem, e diga-se de passagem: hoje em dia ja nao esta na moda, nao realizar trabalhos sociais, e nao tem como nao ser feliz, ocupando o nosso tempo ajudando a quem precisa.. um beijo e boa sorte!

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  13. Bom dia Celina! Sou noiva de um diplomata aqui no Brasil, nos conhecemos logo depois da chegada dele aqui, hoje faltam 1 ano e 5 meses restantes do tempo dele aqui no Brasil. E só de uns dias pra cá tem caido minha ficha, estou me formando em Direito, nunca vou poder exercer minha profissão, vou ter que abandonar amigos e familia, etc... Te digo uma coisa, é tudo por amor, e não só por ele, é pelo companheirismo, pela lealdade, pela fidelidade, pela parceria que nós enquanto casais temos um para o outro. E tem que ser por isso, tem que amar muito a pessoa, e querer construir histórias e uma vida com ela independente de onde seja. Claro que com os preparativos do casamento antes de completarem os 4 anos dele aqui tinham me mascarado a realidade, a gente tem que pensar muito se é esse com esse homem mesmo que queremos passar o resto da vida, pois teremos que nos apoiar muito, e sermos parceiros mas do que nunca nessa jornada! Eu tenho pensando que se eu não encontrar nenhum trabalho remunerado quando deixarmos o Brasil, eu quero me engajar em trabalhos voluntários e sociais, quero me ocupar de algo, e fica a dica para as outras pessoas, acho que como não vai ser fácil ter uma carreira, que pelo menos contribuamos com solidariedade em cada lugarzinho desse mundo por onde passarmos! Bjus e adorei seu blog!

    Att.:
    Laiane

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    1. Nossa Laiane, uma decisão difícil mesmo, mas siga o seu coração que tudo vai dar certo!
      Parabéns pela sua coragem de determinação, espero realmente que o amor de vocês só aumente a cada pais que vocês viverem e que sejam muitos felizes...
      Você terá pelo 4 anos no novo pais, por que nao fazerem uma outra graduação, um curso, algo que voce goste e que seja fácil voce exercer em qualquer pais? Um dias, eu pelo menos faria isso...

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  14. Celina,

    Obrigada pela iniciativa de tocar nesse tema ainda muito pouco abordado e divulgado. Ler o seu texto e os comentários me ajudou a tomar a importante decisão de acabar um relacionamento com um diplomata. Acredito que abrir mão da carreira, dos amigos, dos familiares, das raízes e do salário próprio é uma afronta à personalidade e à independência de uma mulher. É claro que foi uma decisão muito difícil, pois me despeço de um grande amor, mas dou alô a mim mesma e planejo um futuro com estabilidade emocional, geográfica, familiar e financeira. Penso também que, infelizmente, a carreira diplomática, com todo seu gerenciamento, hierarquia e pompa, está desatualizada e ainda resta muito preconceituosa e "homo-cêntrica". E acho que isso só vai começar a mudar quando não forem mais os "não-diplomatas"a pensar em abdicar dos seus trabalhos, mas quando os próprios diplomatas desistirem de suas carreiras para ficar com a família.

    Abraço

    Natália

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