Pular para o conteúdo principal

Haja coragem

Muitos são os desafios para aqueles que aceitam a missão (no sentido mais amplo da palavra) de trabalhar em postos D, os mais difíceis do serviço exterior brasileiro.

Mais um caso extremo infelizmente aconteceu. A Assistente de Chancelaria Berenice Ferreira faleceu de malária e febre tifóide nesta semana. Ela estava em missão em Malabo, na Guiné Equatorial, país vizinho aqui do Gabão. Assim como a diplomata Milena Medeiros, ela faleceu em virtude do agravamento do seu quadro e fez, uma vez mais, o Brasil conhecer o "lado B" de seu serviço exterior.

As famílias que entram nessa "aventura" de representar o Brasil em locais que apresentam riscos precisam de auxílio, informação e maior suporte do governo. Muitos e frequentes são os casos de malária entre funcionários e contratados locais, mas não são só as doenças que ameaçam... Existem os riscos de atentados, furacões, terremotos, distúrbios civis. Todos esses casos ocorreram nas duas últimas semanas em alguma parte desse mundo, lugares onde temos colegas próximos trabalhando, queridos amigos que também colocaram "o pé no mundo". Basta ver algumas notícias da semana: furacão no Haiti e nos EUA, terremoto na Guatemala, frequentes atentados e distúrbios civis no Iraque, Síria, Líbano...

Não raro vem a pergunta: "vale a pena o risco?" ou "o que estou fazendo aqui?" - mas aqui estamos! Haja coragem para deixarmos nossa pátria, que não sofre com nenhum desses infortúnios!

A amiga de Berenice, Erika Vanessa, postou, na página do facebook do MRE Brasil, a seguinte mensagem:

"Venho manifestar o meu repúdio a uma situação infelizmente tão comum no MRE, mas pouco conhecida de toda sociedade. Veio a falecer uma querida colega que estava em Malabo. A Assistente de Chancelaria Berenice Ferreira faleceu em decorrência do agravamento do quadro de malária e febre tifóide adquiridos durante sua missão. Foi mandada com urgência ao Brasil e não resistiu. Muito se falou e muito se repercurtiu após o falecimento da Diplomata Milena, mas o que acontece de fato é que pessoas continuam morrendo. Servidores públicos a serviço do país continuam morrendo de graves doenças, principalmente em postos C e D no exterior. Muita coisa precisa ser mudada e repensada no tratamento dos servidores públicos a serviço do Governo brasileiro em outros países. Não se pode mais admitir tanto descaso. O apoio necessita ser integral, efetivo. Quantos mais precisarão morrer até que finalmente alguma providência efetiva possa ser tomada? Quantos mais precisarão perder a vida? Isso precisa ser divulgado para toda sociedade, para aqueles que, por desconhecimento, muitas vezes pensam que nós vivemos vida de luxo no exterior. Casos como o da AC Berenice não são divulgados, mesmo sendo o retrato da realidade. Fica aqui o meu manifesto, o meu repúdio à falta de estrutura no exterior. Queremos DIGNIDADE!"
https://www.facebook.com/Brasil.MRE?fref=ts

Deixo aqui o registro e meus pêsames a mais esta família.
Para os que seguem, desejo saúde, coragem e ânimo!

Comentários

  1. Celina, parece que ela faleceu por um AVC, e não por complicações da malária. Que Deus a abençoe sempre! Acompanhando o seu blog maravilhoso!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

POSTS POPULARES

Esposa de Diplomata - Parte I

Nossas aventuras pela África continuam!  Recentemente completamos 1 ano em África. Foi um ano de muitas novidades, tantas descobertas, cores, paisagens, sabores!
Além da oportunidade de morar em Libreville ainda conseguimos conhecer outras cidades africanas: Joanesburgo, São Tomé, Cotonou, Luanda, rápidas passagens por Adis Abeba e Ponta Negra, e ainda a linda Cidade do Cabo! Cada uma dessas cidades deixou sua marca especial na minha memória e impressões daquelas que só se pode ter vendo com seus próprios olhos. 
Ainda temos muitos planos de viagem e amigos para visitar na África. Vamos tentando assim conhecer um pouquinho mais esse continente tão incrivelmente cheio de riquezas naturais, humanas, gastronômicas, religiosas, étnicas, idiomáticas... 

Quanto à experiência da vida diplomática, eu diria que agora me sinto um pouco mais situada e recompensada pelas difíceis decisões de deixar o Brasil, meu trabalho e tantas outras coisas e sonhos. Ganhei, no entanto, em um ano o que eu não ganh…

Falando em tecidos...

Fazer este blog tem me feito notar coisas que eu normalmente não notaria. Além disso, tenho cada vez mais percebido que escrever é uma arte! É difícil reler suas próprias produções depois do calor do momento; sempre quero mudar algo, incluir, tirar, enfim... Peço desculpas pelos errinhos e espero continuar passando a vocês esta experiência da forma mais clara, leve e objetiva possível. 

Falando na arte da escrita, lembrei da contracapa de um livro que ganhei da querida diplomatriz Carollina Tavares, que diz: "O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele simplesmente faz é iluminar com os seus olhos aquilo que todos veem sem se dar conta disso. (...) para que o mundo já conhecido seja de novo conhecido como nunca foi." (Rubem Alves)

Na África, descobri que a escrita pode ter milhares de formas e cores! Aqui, até o estampado de uma roupa é uma forma de expressão. A estampa fala por si só, cada uma delas explicita um sentimento, uma situação, um nome, um p…

Mariage coutumier: o casamento tradicional no Gabão

Hoje vou tratar de um tema complexo e com implicações sobre a questão de gênero, o mariage coutumier (casamento tradicional), bastante comum no Gabão e em diversos países africanos. A cerimônia terá particularidades mesmo dentro de um país, a depender da região e da etnia a que os noivos pertencem.
É sem dúvida um dos rituais mais interessantes e tradicionais da cultura gabonesa, mas, como é comum nas instituições sociais, tem suas controvérsias.

O grande dia

De quinta a domingo se você ouvir sirenes e ver comboios de carros escoltados pela polícia, lotados de pessoas (incluindo em cima de caminhonetes) vestindo as mesmas cores e em clima de comemoração, não tenha dúvidas: não é revolução, é casamento!


Os membros da família da noiva vestem-se com tecidos iguais, que combinam com o tecido da família do noivo.

O tecido ("pagne") é previamente definido e deixado em lojas de tecido da cidade com o nome dos noivos. Os convidados irão coser seus trajes com o tecido escolhido pelos noi…